


Tudo começa com uma simulação de três fotografias gigantes, em preto e branco, de bonecas com cabelos que lembram o brinquedo playmobil e vestidas com roupas de papel vegetal idênticas às utilizadas no SPFW. Passamos, então, por um simulacro de imagens de modelos usando as mesmas peças das bonecas anteriores, com o mesmo cabelo de plástico, ares robóticos e a mesma maquiagem branca com boca e olhos negros. Depois somos conduzidos para as fotos dos bastidores da produção e, como final e começo, chegamos ao popular “olho de Niemeyer”, o último andar do museu que tem a forma de um olho gigante.
Neste espaço, estão manequins de loja com algumas roupas da coleção, dispostas numa vitrine com dezenas de palavras que ajudam na definição do conceito de toda aquela obra. Também fazem parte do ambiente algumas prateleiras que lembram supermercados. É a única parte colorida da instalação. São 800 frascos transparentes de plástico e cheios de líquidos de cores intensas que variam entre amarelo, azul, vermelho e verde, que podem ser adquiridos por R$ 199,00 cada. E chegamos ao mais esquisito: uma espécie de rato popularmente conhecida como Gerbil.
Numa pequena maquete de vidro em forma de olho, eles roem os vestidos de papel vegetal e os bonecos de papel machê, tudo em miniaturas de 30cm refletido numa parede expositiva de 6m de altura por 28m de comprimento. Detalhe: as pessoas que observam os ratinhos também podem se ver no “telão”.
Se tivesse que resumir a instalação, diria que Revolver, assim como o desfile, é uma crítica ao consumo e à sociedade massificada. É uma mostra que estimula o questionamento e a reflexão do público. Mas é preciso retornar à idéia motivadora do desfile para entendermos toda a exposição.
Há poucos meses do SPFW 2004, o trio não conseguia definir o que seria produzido para o evento. Foi quando Morin surgiu como fonte inspiradora para que eles fugissem das ações óbvias e buscassem novos horizontes. O desafio era unir o gosto popular que o mercado da moda exige com um tipo de arte contemporânea que causasse estranhamento, encantamento e incômodo.
Foi assim o início da elaboração dos vestidos de papel, elemento comum, próximo a nós e descartável, cuidadosamente bordados a laser para que se tornassem únicos e desejados. O conceito por detrás da forma era de que as pessoas quisessem o cuidado e a eternidade daquelas peças diante de toda fragilidade do papel.
A destruição de tudo, tanto pelas modelos, em 2004, como pelos ratos na instalação, é a exposição máxima do caos e a ruptura com o mundo fútil da moda que traz em si valores como o consumismo, a massificação e a efemeridade, o que nos lembra a frase de Marx “tudo o que é sólido desmancha no ar”, representando a pouca duração dos elementos da vida atual e, mais que isso, a quebra das regras, dos valores existentes e não questionados que transformam os indivíduos em marionetes manipuláveis, de conteúdo igual, representados na mostra por frascos com cores que garantem a atração e têm a mesma essência: água e corante.É a produção em série de objetos e pessoas, mas colocados como se fossem exclusivos.
E o rato está ali como uma praga destrutiva que se multiplica sem controle, também representando o consumo frenético, que apesar de ser um mal para a sociedade, aparece de forma carismática e encantadora. Esses são os segredos do mercado.
Além disso, era necessário que houvesse um elemento lúdico de identificação imediata com cada espectador para que se sentissem como parte daquele universo. Daí surgiu a idéia de usar o cabelo do boneco playmobil, imagem bastante popular. Um ícone perfeito, já que também expressaria a massificação social.
E tudo é feito com reflexo e repetição que nos leva sempre de volta à mostra. É como se não houvesse saída ou solução para o consumismo ao qual nos submetemos da mesma forma que acontece no inferno de Sartre, na peça Entre Quatro Paredes, em que as personagens, por estarem submetidas ao olhar do outro, não conseguem alcançar autonomia nem liberdade. É a tal da estética, do social, que nos faz perguntar sobre “o que outros vão pensar de mim?”. E o mercado sabe muito bem como utilizar isso transformando marcas em estilos de vida.
É verdade que eu não entendi o porquê da instalação ser toda em preto e branco, com exceção apenas da parte que comporta os frascos plásticos. O que me conforta é imaginar que a platéia presente no SPFW, que aparece no vídeo (abaixo) comemorando a destruição das roupas, tenha entendido bem menos que eu. Principalmente as pessoas da primeira fileira (rrsssssssss). Diria até que elas não faziam idéia do que estavam aplaudindo. E tudo o que aconteceu de nada serviu para mudar esse público nem o evento. Como declarou Jum Nakao, no filme A Costura do Invisível, o desfile não conseguiu transformar nada ao redor. A modificação aconteceu apenas na vida de cada um dos que produziram aquela coleção.
LLL